Thursday, 6 August 2015

Apresentação do livro no Centro Cultural da Nazaré
no dia 7 de Agosto às 21:30 horas


O livro "Quinto Império - testemunhos de uma história verídica", da autoria de António Botto Quintans, vai ser apresentado com a presença do autor amanhã sexta-feira, dia 7 de Agosto, às 21h30, no Centro Cultural da Nazaré, por ocasião da Feira do Livro que ali decorre.
Dado à estampa em Julho pela Chiado Editores, o livro"Quinto Império - testemunhos de uma história verídica", foi lançado há poucos dias na Lourinhã. 
O livro resulta e resume as investigações de alguns anos do seu autor sobre os vestígios templários na região e na quinta que, segundo a tradição, poderá esconder o grande Tesouro dos Templários, herdado pela Ordem de Cristo. 
A quinta, onde também Camões se terá inspirado para escrever a Ilha dos Amores, torna-se o centro das atenções deste trabalho que "encontra marcas inéditas da presença templária em toda a zona envolvente, inclusive um campo de sepultura e registos escritos que sugerem que algo de muito importante foi escondido nesta zona durante o reinado de D. Dinis".
Ilustrado por muitas imagens que ilustram o que o autor afirma a cada passo apresenta um conjunto de testemunhos físicos e historiográficos prende o leitor do princípio ao fim. "Não há subterfúgios nem ideais subconscientes. Tudo é límpido como as águas que correm na Fonte Divina da Quinta da Moita Longa" como sublinha António Botto Quintans.
O livro está à venda nas lojas das redes FNAC, Bertrand, Wook, para além de um conjunto de duas dezenas de outras livrarias independentes. O livro pode ainda ser adquirido online directamente na editora AQUI.
Lançada na Lourinhã, o concelho onde se situa a Quinta da Moita Longa, a obra está a ser objecto de diversas apresentações em Lisboa, Porto, Tomar e Ericeira, entre outros locais.
O autor
António Luís Botto e Sousa Quintans nasceu em Lisboa a 25 de Julho de 1959. Frequentou Gestão de Empresas na Universidade Livre de Lisboa e desde 1985 que se dedica à Quinta da Moita Longa, na Lourinhã. Colaborou em diversos jornais e revistas e em 2014 publicou "Contributos para a História da Aguardente Vínica Lourinhã D.O.C."
Um dossier completo pode ser descarregadoAQUI.

Wednesday, 5 August 2015

O VINHO MOSCATEL DA QUINTA DA MOITA LONGA E A REGIÃO DEMARCADA DE ORIGEM CONTROLADA DE AGUARDENTE VÍNICA DA LOURINHÃ

Quando no séc. XVIII se começou a produzir em escala o vinho do Porto, logo se constatou que o mesmo perdia propriedades na descida do rio Douro e no transporte para o estrangeiro. A solução encontrada foi a de o beneficiar com aguardente vínica de características muito especiais, devendo esta ser destilada de vinhos de baixo teor alcoólico e muita acidez. Assim sendo, os vinhos verdes do Norte possuíam essas características embora a sua parca produção dificultasse a utilização em escala para o fabrico da aguardente.

Foi então que se descobriu que na região da Lourinhã existiam vinhos com características semelhantes às dos vinhos verdes, cujas características eram perfeitas para o fabrico de aguardente vínica. Houve logo casas de vinho do Porto que passaram a requisitar aguardente vínica da Lourinhã, e muitas delas chegaram mesmo a ter aí as suas próprias destilarias. Por esse motivo se compreende também que na Lourinhã se tivessem instalado filiais de agências bancárias e de seguros da “cidade invicta”.

Hoje, Lourinhã, Cognac e Armagnac, constituem as três únicas regiões demarcadas de origem controlada, em todo o mundo, de aguardente vínica.

No século passado, as aguardentes da Lourinhã eram transportadas em carros de bois até ao Bombarral e daí seguiam de comboio até ao Porto. Ora acontece que esta história criou grande celeuma nos produtores de vinho verde do Norte, e os comboios vindos do Bombarral, à chegada, eram sistematicamente ameaçados e vandalizados. O tempo passou e a verdade é que já no limiar do séc. XXI, muitos dos vinhos verdes que foram comercializados aquém e além fronteiras foram fabricados com uvas da região da Lourinhã, sem que se soubesse.

É a partir de 1900 que as aguardentes da Lourinhã conhecem um grande incremento e é no primeiro quartel do séc. XX que se instalam na Lourinhã destilarias, agências de seguros e agências bancárias da “cidade invicta”.

Contudo, o que iria marcar o ano de 1900, não seriam as aguardentes, mas sim os vinhos licorosos da Lourinhã. Conforme se pode ler em “História de Portugal” do Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, em Paris, abrira a 4 de Abril a grandiosa Exposição Universal, onde o nosso país se fez representar[1]. Ora aconteceu que o vinho moscatel da Quinta da Moita Longa (Lourinhã) foi premiado na Exposição Universal de Paris; e novamente em 1915 viria a ser galardoado na Exposição Mundial Panamá – Pacífico, entre outros prémios em outras grandes exposições nacionais e internacionais.


Quinta da Moita Longa

Toda a informação supracitada pode ser consultada no Anuário Comercial de Portugal (Biblioteca Nacional de Lisboa) e no Instituto Nacional de Estatística.

Aquando da Exposição universal de Paris, em 1900, era assim a vida na Lourinhã:

Caminhos de Ferro

As estações mais próximas eram Torres Vedras (20 km), Bombarral (17 km) e S. Mamede (14 km).

Diligências

     Havia diligências diárias para Torres Vedras e para Peniche (de serviço combinado até Óbidos e Caldas da Rainha, e para a Praia da Areia Branca a 100 reis, ida e volta).

Feiras e mercados

     A 24 de Agosto no lugar de S. Bartolomeu, a 8 de Setembro no sítio de Nossa Senhora da Misericórdia e a 21 de Setembro na Lourinhã. Mercado de gado maior e miúdo, recentemente criado, no 2.º domingo de cada mês, excepto em Setembro.
      
Administração do Concelho

     Administrador: Joaquim Pereira Coutinho
     Substituto do Administrador: Francisco Maria Pereira Marques
     Secretário: António Maria Roque Delgado
     Amanuense: Eduardo Augusto Rodrigues d’Azevedo
     Oficial de diligências: Cosme Ribeiro

Administração Judicial

     Juiz: Visconde de Ferreira Lima
     Delegado: Álvaro Miranda Pinto de Vasconcellos
     Escrivães: João de Fontoura Madureira
                      Alberto Cardoso
     Contador: Alfredo Martins
     Arbitradores: Francisco Pedro de Carvalho
                           Eduardo Augusto Rodrigues d’Azevedo
                           Carlos Fernando Horta Gama
                           João Veríssimo de Oliveira
                           Jacinto Ferreira Nobre
     Oficiais de diligências: Manuel da Graça Júnior
                                      José Ferreira Pinto
     Carcereiro: Daniel Lourenço Ferreira

Advogado

      Visconde de Palma de Almeida

Agência bancária

     Lisboa & Açores: Ernesto António Conde

Agências de seguros

     Tagus: Francisco de Paula Furtado
     Probidade: Joaquim Pedro de Oliveira
     Portugal: Alberto M. De Carvalho
     Internacional: Carlos Gama
     Commercial do Porto: Fernando de Almeida


Águas minerais

     Uma nascente sulfurosa, não analisada nem explorada, próximo do lugar do Paço, freguesia de São Bartolomeu

Armação de pesca

     Sistema valenciano no sítio de Paimogo, de Augusto Simões Ferreira da Cunha

Assistência judiciária

     Presidente: Álvaro Miranda Pinto de Vasconcellos
     Vogais: Dr. Francisco Marques
                   Boaventura de Sousa Marques

Barbeiros

     Albino dos Reis Cadete
     José Baptista Ferreira
     Epiphanio Ribeiro
     José Rafael Pereira

Câmara Municipal

     Presidente: Francisco de Paula Furtado
     Secretário: Arthur Gonçalves
     Amanuense: Fernando d’Almeida 
     Contínuo: Augusto dos Santos Picão
     Aferidor: Arthur Ramires Ferreira Nobre
     Tesoureiro: Ernesto António Conde
     Condutor de obras municipais: E. Coutinho

Conservatória

     Conservador: Dr. Francisco Marques

Correarias

     José da Silva Lucas
     Leopoldo Augusto Madeira

Correio e telégrafo

     Chefe: Joaquim Gregório dos Santos
     Distribuidor: José Baptista Ferreira
     Guarda-fios: Manuel Maria

Destilarias de Aguardente

No Inquérito Industrial de 1890[2] existiam na Lourinhã 7 destilarias de Aguardente com um capital fixo de 7.500$000 [7,5 contos de reis] – só 3 destilarias é que responderam; capital circulante de 7.500$000, uma delas a funcionar todo o ano, três em 3 meses, duas em 2 meses, uma em 1 mês, com um número médio de dias de trabalho por ano de 30 a 90, de Verão 12 horas de trabalho, de Inverno 6 a 12 horas; número médio de serões por ano, 20 a 90; horas por serão, 3 a 4; número médio de operários por dia: 18.

Em 1900, aferiram:
    
     António Luiz Marques
     Jayme Pereira Coutinho
     José Agnelo do Rosário e Silva
     António dos Santos Bernardes

Enxofre para vinhas

     Alfredo Júlio Franco

Farmácia

     António César H. Gama

Ferradores

     Lino José dos Reis
     Manoel Moço

Hotel

     Amélia dos Reis Cadete

Juiz de paz

     Juiz: Anacleto Marcos da Silva
     Escrivão: Eduardo Augusto Rodrigues d’Azevedo

Lavradores ou agricultores principais

     Visconde de Palma de Almeida
     José Joaquim da Costa
     António Luiz Marques
     Adriano Palma
     Arthur Gonçalves
     Francisco Furtado
     António Rodrigues Pereira
     Viúva de João da Silva Lucas
     José Agnelo do Rosário e Silva
     Jayme Pereira Coutinho
     Vicente Pimentel & Quintans (Quinta da Moita Longa)

Negociantes e comerciantes

     José Henriques Horta d’Almeida
     Viúva de João da Silva Lucas
     António Luiz Marques
     Vicente Fernandes Duarte
     Marques & Carvalho
     Francisco Maria Pereira Marques
     José Pinheiro d’Andrade
     Augusto Simões Ferreira da Cunha
     João Jeronymo da Costa
     Veríssimo de Oliveira
     Hugo José dos Santos

Notários

     Os escrivães de direito

Obras Públicas

     Chefe da secção de conservação: Joaquim Pedro de Oliveira

Paróquia

     Prior: Augusto Nazareth
     Coadjutor: José Quintino de Carvalho

Polícia

     Guardas: José Joaquim
                    Manuel Eusébio
                    Cosme Ribeiro
              
Professores

     Joana da Providência Alenquer
     P. Júlio Thiago
     António de Oliveira Carvalho
     Maria do Carmo Reis
                         
Recebedoria

     Recebedor: Ernesto António Conde
     Proposto: Eduardo Augusto Rodrigues d’Azevedo

Repartição de Fazenda

     Escrivão: Carlos Alberto da Silva Velloso
     Das execuções fiscais: Carlos Fernandes Horta Gama
                                          Fernando d’Almeida
     Escriturários: Carlos Fernandes Horta Gama
                           Adelino Xavier

Saúde Pública

     Sub-delegado: Joaquim de Jesus Lopes

Teatro e Sociedade de Recreio

     Theatro Club Recreativo Quatorze de Julho
     Philarmónica Lourinhanense


Trens de aluguer

     Proprietários: Dr. António Luiz Marques
                            Alfredo Júlio Franco
                            Joaquim Bento

Vinicultores

Vicente Pimentel & Quintans, proprietários da Quinta da Moita Longa. Premiados na Exposição Universal de Paris.

Principal comércio do concelho

O concelho é essencialmente agrícola, abundando em vinho, trigo, milho e batata. Também é abundante em peixe e fruta, especializando-se a maçã.

Freguesias

Miragaia

     Pároco: Francisco José Alves
     Professora: Maria Adelaide Fernandes dos Santos
     Comerciantes: Augusto dos Reis Cadete
                             José Henriques Ribeiro
                             António Dias Sarreiro (da Marteleira)
                             José Vieira (da Ribeira de Palheiros)
     Encarregado do correio: Augusto dos Reis Cadete
     Fábrica de destilação de vinhos: Jayme Pereira Coutinho
     Lavradores ou agricultores: Manuel Ferreira (das Papagovas)
                                                  Manuel  Matheus (de Miragaia)
                                                  Jayme Pereira Coutinho (da Quinta do Perdigão)
                                                  Filipe Bernardo (de Vale de Moura)
     Regedor: João Tavares
                                           
Moita dos Ferreiros

     Pároco: Silvestre Tavares dos Santos Lima 
     Professor: António Duarte da Silva
     Comerciantes principais: Ezequiel Duarte
                                              Manuel Pereira Loureiro
     Encarregado do correio e regedor: José de Oliveira Guimarães
     Lavradores ou agricultores: D. Maria da Conceição F. Rego
                                                  José Luiz da Silva Rego
                                                  José Matheus

Moledo

     Pároco: Silvestre Tavares dos Santos Lima 
     Comerciante e encarregado do correio: António Custódio
     Lavradores ou agricultores: António da Silva Carapeto
                                                  Arsénio Simões
                                                  Ignácio José

Reguengo Grande

     Pároco. Ângelo Firmino da Silva
     Professor: Theodoro Coelho de Barros
     Comerciantes: Silvano Marcellino
                             José António Pereira
                             José Maria de Carvalho
     Lavradores ou agricultores: Manuel Francisco Marques
                                                  José Bernardino
                                                  João Maria Rodrigues
                                                  João Maria do Nascimento
     Chefe da estação telegrafo-postal: João Fontes Pinto
     Regedor: Arsénio Leonardo

São Bartolomeu dos Galegos

     Pároco: Ângelo Firmino da Silva
     Encarregado da estação postal: Gabriel Marques
     Lavradores ou agricultores: Manuel Luiz Marques de Matos (da Quinta da Lameira)
                                                  Joaquim Ferreira
                                                  Augusto Simões Ferreira da Cunha
     Regedor: Joaquim da Costa

Vimeiro

     Pároco: Luiz António do Sobreiro
     Professora: Lydia da Assunção Ferreira de Moraes Pinto
     Comerciante: José Thomaz da Costa
     Encarregado do correio: José de Andrade Jordão
     Lavradores ou agricultores: António da Silva Henriques
                                                  José de Andrade Jordão

     Regedor: José da Silva Henriques




[1] Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, Vol. X, pág. 91, Editorial Verbo, 1987
[2] Idem, ibidem, Distrito de Lisboa, pág. 40

Tuesday, 4 August 2015

QUINTA DA MOITA LONGA (1860-1891)

Em Julho de 1860, foram extintos os morgados em Portugal.

Gabriel de Carvalho Figueira, foi o último administrador do morgado da Quinta da Moita Longa.

A 31 de Maio de 1862, em hasta pública, a Quinta da Moita Longa foi adquirida por João Pedro Colares Pereira e sua mulher, Justina Maria da Assunção, pela importância de dois contos e quatrocentos mil reis[1].

Volvidos dois anos, a 4 de Fevereiro de 1864, pela mesma quantia, João Pedro Colares Pereira vende a Quinta da Moita Longa a Francisco de Salles Barbosa, casado com Maria José Victória Pereira Bandeira, moradores no Bombarral[2], filho de Manuel Salles e de Leonor Maria, que viviam na Quinta de S. Jorge, na Chamusca[3].

Por herança, como consta na Conservatória da Comarca de Torres Vedras, n.º 17412 L-B 45 f. 36v, a Quinta da Moita Longa ficou na posse de Maria Leonor Barbosa, casada com Emílio Augusto de Faria Estácio, moradores em Lisboa.

Praticamente dada ao abandono desde os tempos de Fabião de Carvalho Figueira (7º Morgado), Emílio Augusto de Faria Estácio, com o consentimento da sua mulher, resolve constituir uma sociedade civil em nome colectivo, no intuito de explorar agricolamente a Quinta da Moita Longa, o que se veio a concretizar a 3 de Outubro de 1891[4], por escritura celebrada em Lisboa, na Rua do Ouro.

Nasce assim a Sociedade Emílio Estácio & Companhia, de que são sócios, Emílio Augusto de Faria Estácio – autorizado por sua mulher –, Alexandre Pomarêde, António Quintans – meu bisavô paterno –, Joaquim José Gonçalves Ferreira e Vicente José Lourenço Pimentel.

No espaço de apenas uma semana, António Quintans adquire a quota de Alexandre Pomarêde e, Vicente José Lourenço Pimentel, a de Joaquim José Gonçalves Ferreira. Ficam portanto apenas três sócios.

Foi então decidido replantar toda a Quinta de vinha, à semelhança do que André da Silveira do Pó havia feito em 1533.

Emílio Estácio ficou com o cargo de administrar a propriedade e o pessoal, Vicente Pimentel, com o de organizar toda a escrita e contabilidade e, António Quintans, com o cargo de toda a comercialização e exportação de vinhos.

Em 1894, Emílio Estácio decide vender a sua parte na sociedade, bem como toda a Quinta da Moita Longa, aos outros dois sócios, que a 8 de Outubro do mesmo ano, constituíram assim uma nova sociedade, agora com a designação de Vicente Pimentel & Quintans[5].  

Por morte de Vicente Pimentel e por herança deste, António Quintans ficou único proprietário da Quinta da Moita Longa.



[1] IAN/TT, Livro de Escrituras, Cartório 7 B, L. 351  Cx. 48
[2] Idem, ibidem
[3] Idem, ibidem
[4] Idem, ibidem
[5] Idem, ibidem

Monday, 3 August 2015

A QUINTA DA MOITA LONGA E AS INVASÕES FRANCESAS

No livro (pág. 146), é mencionado que na capela da Moita Longa foi colocado o altar de talha dourada no séc. XVII, mas, poste­riormente, aquando das Invasões Francesas (1808), o mesmo foi propositadamente ta­pado por uma parede de tabique.

Aconteceu que há cinquenta anos atrás o meu avô estava a preparar a capela para o casamento de uma tia minha, quando uma empregada caiu de um escadote enquanto estava a limpar a dita parede e o cotovelo atravessou a divisória falsa que separava a capela-mor do corpo da ca­pela.

Tal foi o espanto quando através do buraco viram o ouro do altar a brilhar.

Por momentos chegaram a pensar que tinham localizado o tesouro perdido da Moita Longa.

Ano de 1807. Portugal foi invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte e em Agosto de 1808, uma ordem emanada pelo comando do exército luso-britânico e assinada pelo general Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington), comunicava que todos os agricultores da Lourinhã deveriam abandonar as suas aldeias e propriedades, pois para estas paragens estava eminente um confronto militar entre as tropas aliadas e as de Napoleão Bonaparte, comandadas por Andoche Junot.

Fabião de Carvalho Figueira, administrador do Morgado da Quinta da Moita Longa, era então juiz e vereador da Lourinhã[1], e seus irmãos, António Norberto de Carvalho Figueira e Estêvão Telles, eram respectivamente sargento da Marinha Real e coronel do Exército.

Dizia a ordem que as populações não deveriam evacuar a área por terra, mas sim por mar, saindo do porto de Peniche.

Junto à Lourinhã, estava a Quinta da Moita Longa. Um lugar recôndito que reunia todas as condições para aquartelar um exército. Amplas instalações por entre uma vegetação abundante, uma vastíssima linha de horizonte, que se estendia de Montejunto a Sintra; águas minerais; adegas e lagares; casas de moços e estrebarias; currais e palheiros; casa de atafona com duas mós; casa do moleiro; mós de água e ataúde; terras de pão, vinhas, hortas e pomares.

Junot entrou em Lisboa às nove horas da manhã de 30 de Novembro de 1807, e na segunda quinzena de Dezembro, só na capital e seu termo, já se encontravam aquartelados cerca de dezoito mil franceses em conventos e casas religiosas.

A 23 de Dezembro de 1807, Napoleão, imperador dos franceses, rei de Itália, protector da confederação do Reno, decretou o seguinte:

Título I, Artigo I.- Uma contribuição extraordinária de guerra de cem milhões de francos será imposta sobre o reino de Portugal, para servir de resgate de todas as propriedades, debaixo de quaisquer denominações que possam ser, pertencendo a particulares.

Artigo II.- Esta contribuição será repartida por províncias e por cidades, segundo as posses de cada uma, pelo cuidado do general em chefe do novo exército e tomar-se-ão as medidas necessárias para a sua pronta arrecadação.

Artigo III.- Todos os bens pertencentes à rainha de Portugal, ao príncipe regente e aos príncipes que desfrutam apanágios, serão sequestrados.

Todos os bens dos fidalgos, que acompanharam o príncipe, quando abandonou o país, que não se tivessem recolhido ao reino até ao dia 15 de Fevereiro de 1808, serão igualmente sequestrados[2].

A ganância dos franceses era desmedida. Desde o general até ao mais ínfimo soldado, todos se achavam fidalgos. Junot chegou mesmo a publicar um regulamento do decreto imperial, ordenando que se recolhesse todo o ouro e prata das igrejas, capelas e confrarias.
    
Foi sem qualquer tipo de oposição que Andoche Junot entrara em marcha triunfal em Lisboa, perante um povo inofensivo e uma fidalguia dispersa, pois a alta nobreza havia acompanhado D João VI para o Brasil. Eram, por isso, muito limitadas as defesas nacionais, em contraposição às francesas.

Note-se que Napoleão, em finais de 1807, mantinha em toda a Europa 620.000 soldados de pé e a cavalo, 380.000 de infantaria e 70.000 de cavalaria. Napoleão dispunha, além disto, das forças militares do reino da Itália, de Nápoles, de Espanha, do grão-ducado de Varsóvia e dos estados da Confederação do Reno.

A “Alma Lusitana” sentiu-se ferida no seu orgulho. Embora com o coração destroçado, a genialidade do povo português teria mais uma vez que dar provas, sendo imperioso tomar medidas urgentes.

Em Cork, na Irlanda, os Ingleses tinham organizado e pronto a partir, um corpo de exército de 9.000 homens, com destino à América do Sul.

Pela Providência de Deus, um apelo de Portugal fez alterar os planos.

Portugal era um velho aliado da Inglaterra e resolveu desafiar Napoleão, ao não aceitar o Bloqueio Continental que a França tinha decretado à Inglaterra.

O projecto inglês de rumar ao Hemisfério Sul foi anulado e as forças britânicas tiveram outro destino: operar em Portugal sob o comando do general Arthur Wellesley.

Largando Cork a 12 de Julho de 1808, foi com manifestações de regozijo popular que os Ingleses foram recebidos no Porto a 18 de Julho do mesmo ano, tendo-se a notícia espalhado rapidamente por todo o território nacional. De todos os lados vieram juntar-se voluntários, trazendo consigo tudo o que lhes coubesse na mão e na alma, pois o que era preciso era salvar Portugal do jugo e da tirania francesa.

O general Bernardim Freire de Andrade entra em Coimbra no dia 5 de Agosto, perante o delírio popular. Estava generalizado o sentimento de revolta, e logo se reuniram 7.618 homens, como forças de primeira linha, entrando neste número 1.500 de cavalaria, 500 dos quais montados. Quanto às milícias, subiam a 10.000 homens, e as ordenanças a cerca de 15.000.

A 2 de Agosto, Junot tomara conhecimento do desembarque dos Ingleses no Porto. Perante a inoportunidade do acontecimento, e sem plano traçado, vê-se obrigado a fraccionar o seu exército para combater as revoltas populares.

A 12 de Agosto, em Leiria, juntaram-se a vanguarda inglesa e o exército português. Wellesley e Bernardim Freire de Andrade conferenciam sobre o plano de operações.

Wellesley e Bernardim Freire de Andrade, na sua marcha para Lisboa, avançam até às Caldas da Rainha e a Óbidos.

Entretanto, Junot, confia ao general Delaborde o embargo deste avanço, opondo-se-lhes na planície da Roliça (contígua à Quinta da Moita Longa).

De Óbidos vão chegando mensagens emanadas pelo comando aliado, sobre a necessidade de se acautelar um espaço apropriado para albergar tropas, já muito cansadas e principalmente famintas.

Roliça. Eram sete horas da manhã do dia 17 de Agosto de 1808 quando o exército luso-britânico, comandado por Arthur Wellesley, inicia a sua marcha contra Delaborde. Seguindo pela direita, as tropas portuguesas ganharam em pouco tempo a aldeia de S. Mamede, que ocuparam, enquanto duas brigadas do centro avançavam até aos postos dos franceses na Roliça.
    
Pinheiro Chagas, na sua História de Portugal, descreve assim a batalha da Roliça:

Enfim Delaborde o fez escolher uma boa posição defensiva na Roliça, pequena povoação situada a uma légua ao sudoeste de Óbidos, num terreno montanhoso. O exército Inglês, saindo de Leiria, marchara sobre Alcobaça, e depois sobre as Caldas, aproximando-se cada vez mais da costa. Das Caldas destacou Wellesley 4 companhias de “riflemen” para explorarem o caminho de Óbidos. Encontraram-se na Arnoia com um batalhão Francês, que se retirou lentamente depois de ter causado algumas perdas aos Ingleses.

O general Wellesley tinha 13.480 homens de infantaria, 470 de cavalaria, e 18 peças de artilharia. Entravam nesta força 2.592 portugueses, comandados pelo coronel Nicolau Trant, e pertencentes à artilharia 4, cavalaria 6, 11, e guarda real da polícia, de caçadores 6 e infantaria 12, 21 e 24. Delaborde comandava apenas 5.500 homens de infantaria, 500 de cavalaria, e 5 peças de artilharia. Com eles guarneceu a posição da Roliça e as alturas da Columbeira.

Rompeu o exército aliado a marcha às 7 horas da manhã.

Marchando pela direita, as tropas portuguesas não tardaram a ocupar a aldeia de S. Mamede; ao mesmo tempo a brigada Hill conseguiu formar-se na estrada debaixo do fogo inimigo, e este, vendo também ameaçada a sua esquerda, preferiu abandonar a posição da Roliça, concentrando-se na Columbeira, sítio muito mais forte. Aí tornou-se o combate mais intenso, e ali se pôde ver logo a índole diversa dos soldados contendores. Os Franceses de Delaborde, não se contentando em sustentarem a sua posição, quando viam os Ingleses mais embaraçados com as escabrosidades do monte, e enleados na vegetação que o veste, precipitavam-se à baioneta calada e desorganizavam-lhes as colunas de ataque. Estas porém formavam-se de novo na melhor ordem, e continuavam a avançar, como se coisa nenhuma lhes tivesse interrompido a marcha. Os Portugueses mais ágeis que os seus aliados, e não menos intrépidos, precediam-nos na tomada das posições, tanto assim que foi sempre com receio de se ver flanqueado pelas colunas da direita que Delaborde retirou da Roliça para a Columbeira, e da Columbeira para a Azambujeira dos Carros. Efectivamente nessas três posições se sustentaram sucessivamente os Franceses, portando-se com rara intrepidez, em atenção à inferioridade do seu número, que, não sendo tal como o afirma Thiers era contudo notável. Sir Arthur Wellesley prestou homenagem a esta bravura das tropas francesas, que, depois, se retiraram em excelente ordem pela estrada de Torres Vedras, tendo perdido 500 a 600 homens entre mortos, feridos e extraviados, e três peças de artilharia que não puderam transportar, mas tendo infligido ao exército aliado uma perda de 479 homens, e havendo sustentado com raro valor a honra das armas francesas.

Não quis Wellesley perseguir as tropas de Delaborde, e, deixando-o retirar para Torres Vedras, prosseguia ele a sua marcha na direcção da Lourinhã, procurando sempre o litoral, a fim de se reforçar com as tropas inglesas que ia recebendo.

A estrada que ligava Roliça à Lourinhã, passava pela Quinta da Moita Longa. Diz a tradição que o General Wellesley aqui pernoitou.

RELATO DO RESCALDO DA BATALHA DA ROLIÇA PELO COMENDADOR JOAQUIM PAES DE SÁ

Lourinhã 18 de Agosto pelas 9 horas da noite

Ilustríssimo e Exmo. Senhor - Recebo a Carta de V. Exa. de 17, e igualmente vi o que V. Exa. dirigiu ao General Sir Arthur Wellesley, o qual como responde dirá a V. Exa. o seu parecer sobre a direcção da sua marcha, a qual eu direi (se V. Exa. mo permite) deve ser rápida, para ver se se pode fazer a reunião antes da batalha que eu creio se deve dar bem depressa. - Os Ingleses devem desembarcar amanhã mais Tropas, que se devem logo reunir a estas – Laborde com a sua Tropa passou esta manhã por Torres Vedras, levando coisa de 30 prisioneiros Ingleses: Laborde foi ferido gravemente, e se diz que morreu um General Francês, mas creio que há engano nesta segunda parte. Os Ingleses tiveram 300 a 400 homens entre mortos e feridos, segundo hoje me disse o General, com o qual aqui jantei, entrando no número dos primeiros alguns oficiais. Os Franceses além da sua boa situação, se bateram muito bem, mas no combate não entraram 9 Regimentos Ingleses. Uma Bomba caiu ao pé do General em Chefe, mas não arrebentou por sua felicidade. Por Torres passaram muitos feridos Franceses e os Suíços (?) foram levados para Peniche. Calcula pois o General a sua perda em 500 a 600 homens. Agora chegam dois homens que dizem que Junot entrara em Torres Vedras ao meio dia com 4 mil homens. Torres fica aqui distante duas léguas. Logo que possa ter o gosto de ir encontrar a V. Exa. lhe referirei mais alguma particular circunstância.

Sou de V. Exa. o mais atento venerador efectivo Criado - o Comendador Joaquim Paes de Sá.     



Batalha da Roliça

Derrotado na Roliça, Delaborde envia uma mensagem para Lisboa, fazendo-a chegar a Junot, que entretanto, para celebrar a data do aniversário de Napoleão, assistia a um espectáculo de gala no Teatro S. Carlos. Irritado, manda reunir de emergência todos os generais do seu Conselho, incluindo Delaborde, decidindo-se marchar para Torres Vedras, onde entrou, como era seu hábito, com toda a pompa e circunstância, como se de o rei de Portugal se tratasse.

Wellesley, que já se encontrava postado no Vimeiro, a 20 de Agosto escreve a Bernardim Freire de Andrade, que ainda se encontrava em Óbidos, comunicando-lhe que o exército inglês ia tomar o caminho de Mafra.

Responde-lhe o general português, que devido a um rebate falso, as suas tropas tinham estado toda a noite em armas, nas Caldas da Rainha, e que por isso mesmo, não se apresentavam em condições para novo combate.

Por essa razão as forças de Bernardim Freire de Andrade participaram em pequeno número na Batalha do Vimeiro, ficando aquarteladas junto da Lourinhã.

No Arquivo Histórico Militar, encontram-se diversas cartas de correspondência entre Arthur Wellesley e Bernardim Freire de Andrade, quando este último esteve aquartelado perto da Lourinhã, e outras, entre as quais, as que aqui são transcritas[3].

CARTA DE BERNARDIM FREIRE DE ANDRADE AO BISPO DO PORTO

Exmo. e Revmo. Senhor – Meu Senhor: o que eu tive a honra de anunciar a V. Exa. quando saí de Leiria, compôs-se perfeitamente pelo que pertence ao que parecia diferença de opinião. Ontem recebi uma carta do General Wellesley, em que me comunica o que devo fazer daqui em diante. Acho-me em Óbidos em disposição de passar à Lourinhã, ou Torres Vedras, conforme os movimentos do inimigo, que provavelmente já não procurará mais que retirar-se para as imediações de Lisboa depois das acções que tem havido, todas à vantagem do nosso Exército.

O general Inglês está já em Mafra, e os Franceses, reunidos em Torres Vedras, não têm outro recurso do que passando pela outra estrada vir ainda oferecer alguma oposição às operações em que o General Wellesley prossegue com tanto vigor, e energia.

Eu devo seguir a unir-me com este General, logo que o inimigo lhe passe adiante, segundo me disse ontem, mas acho-me sempre embaraçado pelo pão; e isto depois de V. Exa. ter dado todas as disposições que podia; mas é particularmente pela falta de estarem as repartições montadas, como devia ser, e falta de energia dos empregados.

Suplico instantemente a V. Exa. queira mandar-me com a maior brevidade Sebastião Correia com os oficiais, que entender lhe são precisos para me ajudar nesta parte tão essencial, e sem o que estamos peados. Aqui temos recebidos remessas dos diferentes ofícios, que devemos ao particular de V. Exa. Supondo que a entrada em Lisboa se não demorará muito, e eu coxo, por assim dizer, por falta de subsistências seguras, o que não sucede aos Ingleses, que levam provimentos suficientes de bolacha, rogo a V. Exa. ainda uma vez que me mande Sebastião Correia quanto mais depressa - Creia V. Exa. que nada me pode ser mais sensível do que a desordem, em que veio a administração dos víveres, e transportes deste Exército; porque quando senão fazem as distribuições a tempo não se podem fazer com regularidade, e do mesmo modo a respeito dos Transportes. Por aqui não tem ocorrido mais novidade, de que possa informar a V. Exa., e graças a Deus o Reino não tem padecido senão aonde os Franceses estavam. Tenho a honra de ser o mais obrigado, respeitoso e fiel Amigo e Cavalheiro - Bernardim Freire de Andrada. - Exmo. e Revmo. Sr. Bispo do Porto.

Óbidos, 21 de Agosto de 1808.

CARTA DE BERNARDIM FREIRE DE ANDRADE DO QUARTEL GENERAL DA LOURINHÃ

Senhor.

Tendo cessado os motivos, que me prendiam em Leiria, e que vejo com todo o reconhecimento, e satisfação haverem merecido a aprovação de V. A. R., continuei sem perda de tempo a marcha para Alcobaça, e depois Caldas, e daqui a Óbidos onde a falta de subsistência me obrigou alguma demora. E como tivesse ali recebido um aviso do General Wellesley, participando-me que no caso de não poder seguir no dia 21 a marcha do Exército Britânico, que se dirigia pela estrada de Mafra, esperasse então que o inimigo, como parece provável se adiantasse na direcção para Lisboa, e que só depois verificasse a junção do nosso Exército com o de S. M. Britânica, por isso me demorei no Domingo em Óbidos. Aconteceu porém que nesse mesmo dia foram os Franceses atacar o Exército Inglês, que o não esperava, nem eu o podia presumir, estando a 4 léguas de distância, o que não impediu aos nossos Aliados e à Tropa Portuguesa, que dantes se lhe unira, que muito se distinguiu na acção, obterem uma muito assinalada vitória.

No dia seguinte marchei para este Quartel, que me tinha sido designado pelo General Inglês, e apenas chegado me avisa de que era novamente atacado, e que marchasse a recair sobre a retaguarda.

Marchei com efeito; mas tendo mandado um oficial ao Quartel General, quando estava a meia légua de distância, voltou este dizendo-me que o General desejava que eu ficasse junto à Lourinhã.

Quartel  General da Lourinhã, 24 de Agosto de 1808.
Bernardim Freire de Andrade.



[1] IAN/TT, Chancelaria de D. Maria II, Ms. 4 Doc. 756 / Ms. 26 Doc. 368
[2] Mário Domingues, Junot em Portugal, Edição Romano Torres, Lisboa, 1972 
[3] Arquivo Histórico Militar, Boletim do Arquivo Histórico Militar, Livro 1º, Carta n.º 20 e segs.